Os bastidores da grande final

Na quarta-feira cheguei bem antes da abertura dos portões do Pacaembu.

Meus amigos de Radio Coringão, Ginaldo e Daniel, já estavam lá desde as 8 da manhã. Foi necessário esse sacrifício, caso contrario não conseguiríamos um espaço para transmitir a partida. Milhares de profissionais, centenas de órgãos de imprensa fariam a cobertura do evento e cabine, só na base do quem chegar primeiro.

Ao chegar, notei uma enorme movimentação. Centenas de pessoas trabalhando na montagem do espetáculo. Percebi também que havia muita gente perambulando de um lado para o outro, falando ao celular ou simulando uma conversa.

O velho migué, o velho jeitinho brasileiro, valia tudo para estar lá dentro na hora do jogo. O velho migué que ex-parceiros da Radio Coringão tentaram dar para poder estar no jogo ao se credenciarem como jornalistas da Radio – o Corinthians credenciou todos os profissionais de imprensa – coisa feia, nada honesta, não sei se deu certo, enfim, cada um com seu cada um.

Mantive- me tranquilo e confiante durante toda a competição, na reta final não foi diferente. Mas na quarta-feira, assim como em quase todos os jogos há 2 anos, não estava ali apenas como torcedor. Comentaria a partida e teria que substituir nossa repórter, Evelyn Fonseca, impedida de realizar seu trabalho devido a limitação de credenciais. E como separar os papeis? Impossível.

Mas somos uma web radio de torcedores, a paixão é quem fala.

Dei uma volta pelo estádio, imaginando como estaria aquilo em poucas horas. Acompanhei o trabalho do exercito de pessoas na montagem do mosaico, que coisa sensacional, não é a toa que aquilo fica lindo, maravilhoso, a organização dos trabalhos é impecável.

Quem trabalharia na cobertura jornalística do jogo recebeu um ingresso, uma espécie de passaporte que atestava nosso credenciamento. Um funcionário da Federação picotava os ingressos, com aqueles antigos picotadores dos trens.

E avisava: daqui a pouco o Choque vem ai e vai tirar do estádio quem não tiver esse ingresso.

O Choque logo em seguida chegou e o bicho pegou. Tensos, nervosos, truculentos, vasculhavam tudo e abordavam todos.

Parecia que estavam atuando num pátio de detenção, debelando uma rebelião de presos. Sai da nossa cabine, fui dar uma volta, tomar um ar, acompanhar um pouco mais da movimentação. Fui abordado por um destes educadíssimos e bem preparados policiais. “Aonde você vai?”. Vou ali. Ali aonde? Não vai não, fica ai… Não olhava para mim, apenas gritava. Fiquei estático por alguns segundos, percebendo que um clima estava prestes a pintar, sai andando, deixei-o para trás, afinal não havia justificativa para tanta “gentileza”.

Acompanhei a entrada dos primeiros torcedores no setor das cadeiras laranjas. Meu Deus, tinha de tudo! Torcedor que estava vindo pela primeira vez, torcedora de verde, argentino me pedindo pra tirar foto e até um velho amigo “porco” infiltrado nas arquibancadas.

Olhava ao redor e sentia a falta do povão. Do preto, do paraíba, do desdentado, senti-me um corpo estranho ali. Mas em comum, todos corinthianos. Porque o Corinthians é o time do povo. Do pobre e também do rico.

Pacaembu ia enchendo, os setores lotando, exceto o verde e amarela, foi possível observar alguns claros.

A torcida argentina entrou mais cedo. Faziam festa, cantavam, hasteavam suas faixas, fizeram barulho. Mas o barulho prontamente sufocado.

A hora ia chegando. Iniciei meu programa na Rádio as 9 em ponto. No mesmo momento em que 4 argentinos pediram para acompanhar o jogo na nossa cabine, eram do Diário Olé. Disse a eles que tudo bem, mas que nós éramos a Web Rádio do Corinthians. Riram, ficaram por ali, clima total de cordialidade.

Timão em campo, festa, explosão de fogos, o mosaico lindo, tocaram apenas o hino brasileiro, esqueceram-se do hino argentino, bola fora para a organização. Os argentinos, em protesto, deram costas para a bandeira brasileira.

Início do jogo, Corinthians como sempre bem posicionado, marcando forte, fim do primeiro tempo, jogo empatado, 0 a 0, mas a confiança inabalável.

Segundo tempo, os 45 minutos mais angustiantes do corinthiano naquele dia estariam por vir.

Assim como vieram os gols. Explosão da torcida, explosão na cabine da rádio. Ai não segurei. 

Aquela tranquilidade, confiança, extravasada em forma de grito de desabafo, anos ouvindo bobagens da anticorinthiania esquizofrênica, tudo veio á mente naquele momento, 13 de outubro de 1977, 02 de dezembro de 2007, 01 de setembro de 1910… soltei o grito, ali sim estava o torcedor, sei que atrapalhei o momento do gol que é exclusivo do narrador – meu amigo Ernesto Teixeira, narrando tão bem quanto interpreta nossos sambas, a quem peço desculpas – mas os sentimentos ali explodiram.

Veio o segundo gol, a mesma explosão, o mesmo desabafo. Entrevistamos os colegas do Diário Olé, que mesmo antes do apito inicial, elogiavam a equipe corinthiana e diziam que seríamos campeões.

Quando pedi a ele que definisse o Corinthians, como bom argentino, ele disse: “O Corinthians… o Corinthians… o Corinthians joga como uma equipe argentina…”

Como nas últimas conquistas, desci 15 minutos antes do final do jogo, fui ao vestiário, zona mista do Pacaembu lotada de profissionais de imprensa, muitos assumindo seu corinthianismo, fim de jogo festa na zona mista, festa no Pacaembu, explosão da torcida.

Tentamos entrar no gramado, todos impedidos, acesso permitido somente ao elenco, comissão técnica e diretoria.

Vestiário aberto, festa com os jogadores, o primeiro que fiz questão de abraçar foi Julio Cesar. Não adianta, podem critica-lo, mas nunca neguei, sou fã desse menino. Gente boa demais, corinthiano, pedi a ele que continuasse lutando, treinando forte, fiquei emocionado. 

Cumprimentei outros jogadores, presidente Mario Gobbi, mais um que entra para a história, cumprimentei o treinador Tite.

Sai do Pacaembu por volta das 1 e meia da manhã. Estádio vazio, festa nas imediações do estádio, festa na cidade, festa que não para, não para, não para.

Fiz uma prece, agradeci a Deus por mais este momento, agradeci a Jorge Guerreiro, à natureza por ter me trazido num berço corinthiano, agradeci a tudo.

A vida continua. 

Mas a festa não vai parar.

Porque ser corinthiano é festejar todo dia o simples fato de ser corinthiano.

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14 Responses to Os bastidores da grande final

  1. Jimi Jones disse:

    Silvinho, quando o juíz apitou o final do jogo, como aconteceu com você, passou um filme na minha cabeça. Não de títulos anteriores, mas de anos de zuação. Me passou na cabeça, em poucos segundos, quantas pessoas, que eu conheci, que primeira coisa que diziam pra zuar era isso. Nem conhecia o cara, falava eu que era corinthiano e o cara ja fala “não tem passaporte”. Lembrei de uma piada que era mais ou menos Deus falando que só em outa existencia. Aquilo ficou meio qe no meu subconsciente. Imaginei a cena de Deus no seu trono, alguem o perguntando e ele dizendo com sua poderosa voz “Não enquanto eu existir”. Era isso a piada. Então ficou marcado. Como se fosse uma coisa apocalíptica o Corinthians vencer a libertinha. No fundo todo mundo fala, mas ninguém acredita, de fato, que o Apocalipse vai acontecer. Aconteceu. O meu sim. Vizualizei isso durante anos. Como seria, gente chorando, gente de joelho e de mãos pro céu. Emoção ao extremo. Mas como uma coisa distante, quase que um sonho de ser milionário. Ficava babando. Não que isso mude o meu amor. Mas adoro calar que que difamar “Meu Amor”. Quantas vezes quis calar uma roda de Antis que riam pelo fato de não termos “passaporte”. E chegava num ponto que não mais como realmente argumentar. Os rivais tinham. Nós não. E sempre quisemos ter. Daquela eliminiação de 2006, contra o River Plate, pra cá ficou pior ainda. Me paasou esses 6 anos na cabeça. Quando o juíz ergueu o braço eu só dizia “Quem diria?… Quem diria?… Quem diria?” repeti isso umas dez vezes. Olhava para a tv com olhos de sonhador realizado, meio esbabacado. Tipo, pensando: “Isso existe… diziam que não”. Meio piegas, mas foi realmente SURREAL. Isso se misturou. O sonho do apocalipse que não ia chegar, mas chegou. Até antes do que esperava. A piada do Play Station acabou. Do passaporte. Estou realmente INSUPORTÁVEL. Os que vem falar: Parabéns! Mereceu. Lembro quantas vwzes zuou quando perdemos essa libertinha. E já vou tirando: “Parabéns o c…, sai fora. Vai é chorar Anti”. Como li em outro blog. Palavra ao Brasil-Anti: Anti Corinthiano, no momento você não é maloqueiro, mas é sofredor. VAAAAAI CORIIIIITNHIANS!!!!

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  2. Fera disse:

    Cheguei no Paca um pouco antes das 19h30, depois de deixar o carro (da minha esposa) no estacionamento das Clínicas. Normalmente vou de metrô, mas não ia voltar pra casa…

    Quando estou descendo a ladeira do cemitério vejo um cara com jeito de conhecido descendo mais à frente, ladeado por uma rapaz e uma moça jovens. Eu me aproximei de disse “Gamarra?” e o cara responde “Sim!” dando um sorriso me estendendo a mão que orgulhosamente apertei. “Cara, obrigado por tudo o que fez pelo Corinthians!” disse-lhe ignorando que um dia ele vestiu a camisa rivale “e obrigado por ter vindo ver o Corinthians!”. “Hoje o Corinthians vai ganhar!” disse ele. “Deus te ouça, Gamarra! Valeu!”

    Cheguei na fila de deficientes – tenho perda quase total de audição (severa a profunda) – às 19h30 e entrei na laranja duas horas depois! Apesar da intensa movimentação, como o Silvinho disse, eu achei que tava bem tranquilo por ali. Só um pouco de receio de meu nome não estar na lista – foi difícil efetivar a reserva no site 10 dias antes!

    No mais, não há muito o que falar. Pura emoção, olhos marejados, garganta doendo de tanto cantar e gritar…

    Fui dormir às 3h00 e às 6h00 já tava de pé, cansado, mas feliz demais. Saí no quintal e gritei bem forte: “Vai, Corinthians!!!”

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  3. Silvana Regina Romoaldo disse:

    Meu querido irmão ! Fiquei muito emocionada com o seu relato acima, eu sei o quanto corre nas suas veias o sangue de um fiel corinthiano. Quando crianças íamos aos estádio com o nosso pai, avó Benedito e o tio China, lembra ? Não perdíamos um jogo…. Lembro também quando bem pequenininha (aliás sou mais nova que você, né ? rsrsrs) você jogava bola no nosso quintal e me colocava como goleira, comemorando a cada gol e gritando, Corinthiaaaaaaaaaaans ! Agora, curta bastante, é o nosso momento. Mas como você mesmo disse, ser Corinthiano é festejar todo dia o simples fato de ser Corinthiano ! Um grande beijo no seu coração e te amo muito. Com carinho da sua irmã Silvana ou melhor Bica.

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  4. Wilson disse:

    Bela matéria, parece que estive vivento os momentos que antecederam ao jogo. Obrigado…

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  5. Claudio Marques disse:

    Seu time já foi campeão invicto da Libertadores? O meu foi.
    Seu time fez a melhor campanha da história da Libertadores? O meu fez!
    Seu time ganhou a final da Libertadores de um time argentino? O meu ganhou.
    Seu time venceu o Boca Juniors na final? O meu venceu!
    Sua torcida fez calar a torcida do Boca? A minha fez.
    Admitam antis! Admitam a sua inferioridade!

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  6. Claudio Marques disse:

    Pra descontrair!
    Dizem que os bambis estão interessados num jogador do Boca. O Somoza (pronuncia-se Somoça)!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!

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  7. Claudio Marques disse:

    Eu ouvi o seu desabafo nas narrações do Ernesto Teixeira. Acho que se estivesse no seu lugar teria feito o mesmo. Era o grito que estava preso em nossas gargantas desde as falhas do Guinei em 91, do Alexandre Lopes em 96, dos penaltis errados em 99 e 2000, dos erros do Kleber e Roger em 2003, do Coelho e do Betão em 2006, do Moacir em 2010 e o monte de equívocos contra o Tolima.
    Parabéns, naquele momento você representou a República.

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    • Ernesto de Minas disse:

      Esse título deve redimir Guinei, Marcelinho Carioca, Alexandre Lopes, Moacir zica, Betão, Roger pega-pega, Coelho e outros. Ninguém pode passar a vida toda condenado. Seus erros estão perdoados…………….mas não esquecidos. Principalmente ao Betão que se disse neutro na semi contra o S4n7os: tá perdoado, mas não volta mais tá!

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    • Blog do Silvinho disse:

      Não deu pra segurar a emoção

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