A saúde privada no Brasil está na privada

Hospital Santa Virgínia, bairro do Belém, Zona Leste.

Quase um século de existência, outrora chamado Hospital São José do Belém, onde há 42 anos vi nascer minha irmã, onde há 20 anos vi morrer minha bisavó.

Dos quase 100 anos de existência do hospital, frequentando-o há quase meio século.

Hospital que sempre primou pelo rápido e eficiente atendimento, profissionais competentes e estrutura elogiável.

Mas nos últimos tempos, as coisas parecem que fugiram do controle da administração do hospital.

Ontem, um cenário de caos no pronto atendimento infantil.

Situação que passou a se agravar quando há alguns anos, decidiram, com boa e compreensível intenção, segregar a área pediátrica do setor destinado aos adultos.

Mas nesta separação de setores, deixaram apenas 2 consultórios para pronto atendimento infantil.

As pediatras têm que dar conta do pronto atendimento, dar suporte as enfermeiras do pré-atendimento e acompanhar as crianças em observação, algumas invariavelmente em caso grave.

Ontem, por exemplo.

Ao chegar ao setor, uma placa avisava que o tempo médio para atendimento seria de aproximadamente 3 horas, entre cadastramento e atendimento.

Mas as 14:30, hora em que cheguei ao local, existiam pais acompanhados dos seus filhos que haviam chegado as 9, 10 da manhã.

Minha saga começou as 2 e meia da tarde e só terminou quase as 9 da noite.

Uma das pediatras, até por nos conhecermos de outras oportunidades, desabafou. Disse que estava ali desde a sexta-feira, virando plantões, que mal havia tomado banho. Que faz isso por que ama a profissão, ama seus “baixinhos”, mas que não aguentava mais. Suas filhas pedem para que ela abandone o hospital, nem o salário compensa tanto sofrimento.

Na observação, uma criança aguardava desde as 10 da manhã remoção para UTI infantil, que não existe no hospital. A criança havia ingerido várias cápsulas de medicamento para tratamento psiquiátrico da sua mãe, que inadvertidamente deixou cair sobre a cama e não percebeu que a filha havia ingerido o remédio, imaginando que fossem balinhas.

A criança em estado catatônico, o desespero das enfermeiras para fazer com que a criança reagisse aos estímulos, nem a fortes beliscos a criança reagia. Desesperadamente telefonavam para hospitais, a primeira pergunta que alguém do outro lado fazia era “Qual o convênio da criança?”. O convênio, Sulamérica, não sei qual plano e seus benefícios.

A mãe, sem condições nem estava no local. Pai e tia desesperados. A pediatra, desalentada, em seu desabafo dizia que pediatra é algo em extinção no mercado. Que a nova geração não quer isto, é muito desgaste. Que nem os seguranças que trabalham no setor, gostam de ficar ali.

Tentava ligar para a sua chefia, o celular primeiro tocava e não atendia, depois já nem tocava.

Caos total. Pais desesperados, estressados, alguns indo embora, muitos ali há 5, 6, 7,8,9 horas aguardando a liberação dos seus filhos.

Procurei a administração do hospital, claro, a recepcionista bem treinada para estas situações respondeu que não havia ninguém que respondesse pelo hospital, que eu “deveria estar tentando entrar em contato com o SAC a partir das 9 horas de hoje…”

Mas esta situação não é “privilégio” do Hospital Santa Virgínia  Já fui vítima e já ouvi relatos de péssimo atendimento em outros grandes hospitais como São Luiz e Sabará.

E parece que não adianta reclamar. Os planos de Saúde, pelo menos os poucos que restaram no mercado, cada vez mais caros e estendendo menos benefícios.

Quem vai dar jeito nisso?

Só espero que neste momento, a criança em estado grave tenha conseguido uma vaga numa UTI infantil.

E orar por ela e também pela melhoria da saúde pública e também da privada.

Que ambas, estão na privada.

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12 Responses to A saúde privada no Brasil está na privada

  1. Cesar disse:

    A meu ver, as duas únicas funções de um estado que não poderiam ser privatizadas NUNCA são justamente SAÚDE e EDUCAÇÃO: são básicas para a formação de uma sociedade, são fundamentais na construção de uma Nação.

    E são justamente essas duas áreas que mais se transformaram em negócio no democrático e capitalista Brasil, e em alguns outros países também. Pela sua importância, se tornaram um grande negócio, e o sucateamento dessas áreas no setor público é algo que vem sendo promovido com a anuência dos políticos brasileiros.

    E, outra área que vai pelo mesmo caminho é a SEGURANÇA: não me espantaria se logo nos depararmos com cenas fictícias como no filme Robocop, onde a segurança pública era privatizada.

    É ilusão, mas a mudança na saúde passa por pessoa(s) que enfrentem o “sistema” e tomem medidas drásticas. Dinheiro tem, mas não chega nos hospitais. A saúde não pode ser privatizada, não pode ser um negócio, isso deveria ser enfrentado. Pode co-existir? Sim, mas não como é hoje, sendo o principal. Mas… quem teria coragem de encarar isso, e enfrentar os grandes conglomerados privados na área de saúde?

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  2. Luís Carlos disse:

    A questão é simples. A saúde pública é uma merda e os hospitais particulares não precisam de quase nada a mais para faturarem milhões. É só deixarem os banheiros mais ou menos limpos e os otários já consideram o hospital o máximo. Paga 300 reais a mais para os funcionários e estamos resolvidos.

    O Hospital São Luiz que você citou, pelo menos a unidade do Morumbi, não passa de um açougueiro frequentado por “gente diferenciada”.

    Agora, quando dá entrada algum político, artista ou cantor mais ou menos famoso, ou parente deles, o hospital arruma helicóptero, UTI individual, e coloca uns vinte médicos educados à disposição do enfermo e da imprensa.

    Escola particular é a mesma coisa.

    Saúde e educação pública no Brasil são péssimas exatamente para permitir que hospitais e escolas péssimas ganhem muito dinheiro sendo péssimos.

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    • Blog do Silvinho disse:

      No São Luiz do Tatuapé quase esmurrei um ortopedista japa que me tratou como se fosse um qualquer

      Quem salvou a lavoura e a cara do japa foi uma atenciosa supervisora de atendimento

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  3. Roberto_sccp disse:

    Resta saber onde o governo enfia os 80 bilhões que anualmente são destinados para a saúde aqui no Brasil.
    Sem falar que faltam profissionais na área e principalmente em pediatria.
    Seria bom que o povo acordasse para cobrar o que realmente precisa neste país, agora virou moda culpar a copa pela falta de tudo e se esquecem por exemplo, que para se formar um médico leva-se no minimo 20 anos e que destes 80 bi que são destinados a saúde qual é o valor que gastam com o que realmente é carência na área.

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  4. PAULO disse:

    ESSA É A SITUAÇÃO DA SAÚDE QUE ESSES LIXOS DO PT, PSDB, PMDB E DEMAIS PARTIDOS IMPUSERAM AO POVO.
    TANTO PÚBLICA COMO PRIVADA…
    EU NA ÉPOCA DAS DIRETAS JÁ SAÍ NAS RUAS PARA PEDIR A SAÍDA DOS MILITARES.
    HOJE ME ARREPENDO AMARGAMENTE.
    PRA QUEM SERVE ESSA “DEMOCRACIA” QUE VIVEMOS ?

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    • Blog do Silvinho disse:

      Na verdade, no tocante a classe política, seriam necessária regulamentação mais rígida controlando a prestação de serviços dos hospitais particulares

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  5. RENATO77 disse:

    Saúde NUNCA poderia ter se transformado em “NEGOCIO”. Não se pode privatizar a saúde!!!

    Trazendo o tema para o futebol…imagina se o patrocinador do SCCP fosse um convênio médico? Trazendo jogadores do exterior com salários milionários???

    Abraço.

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  6. Edmilson disse:

    Espero que esteja melhor.
    Mas faremos uma Copa do Mundo meu amigo……
    E nem estamos falando da educação também…..
    ABs

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