Waltinho: 30 milhões de histórias. E mais uma

Neste livro, lido em 8 horas, Casagrande exorciza seus demônios

Neste livro, lido em 8 horas, Casagrande exorciza seus demônios

A história do Corinthians se resume em mais de 30 milhões de histórias.

Cada corinthiano tem a sua própria história, tendo o Corinthians como personagem central.

Com Casagrande não seria diferente.

A minha, é apenas mais uma.

A primeira vez que vi Casagrande jogar foi durante uma Copa São Paulo de Juniores, em 81, se não me trai a memória.

Parque São Jorge, velha Fazendinha, um tremendo temporal, chuva de gols dentro de campo, Casagrande deixou sua marca.

Gostei do estilo, camisa pra fora, meiões arriados até as canelas, calção abaixo da cintura, jeito meio louco.

Passaram-se alguns meses, talvez ano, era uma tarde de treino das meninas do vôlei, eu e mais dois amigos, como de hábito, assistindo ao treino e servindo de gandula para as bolas “cortadas” que iam ao palco localizado no “Ginasinho”, fazia calor naquela tarde, pausa para comprar o sorvete, na lanchonete.

Pouco deu tempo de dar uma mordida no sorvete, surge Casagrande em minha direção, pedindo-me “emprestado” meu sorvete.

– Garoto, me empresta seu sorvete um pouco?

Nem respondi, apenas dei o sorvete a ele. Casagrande, que batia cartão nos treinamentos de vôlei das meninas, oferece o sorvete a uma das atletas, a Mônica, que anos depois viria a ser sua mulher.

Minha vizinha, Ana Cláudia, era atacante de ponta do time, na época chamávamos de “cortadora do time”.

Mônica recusou o sorvete, mas Casagrande não. Em duas mordidas quase acabou com o meu sorvete.

O que para mim foi uma honra, a história percorreu pela vizinhança, na escola e entre os demais amigos por alguns meses.

Anos, talvez.

Até que num belo dia, ainda empolgado pela história, contando-a a um amigo lá no clube, percebi que um homem ouvia atentamente a história.

Aproximou-se e perguntou a mim:

– Você está falando do Waltinho da Penha?

– Waltinho da Penha? Não, estou falando do Casagrande.

– Sim, o Casagrande é o Waltinho da Penha. Sou vizinho dele. Você sabia que o Waltinho é maconheiro?

Demorei para processar a informação. Olhei para os meus amigos, eles olharam para mim, todos se olharam, saímos correndo.

Nem sei por quê.

Cheguei em casa e contei à minha mãe, que apenas me disse:

– É, ele tem um jeitão meio loucão mesmo…

Fiquei dias pensando naquilo. Na verdade, não queria acreditar na história.

Muitos anos se passaram. E nestes anos, muitos gols, alguns campeonatos, a Democracia, a parceria com Sócrates dentro e fora de campo, Diretas Já no Anhangabaú, a saída, a volta.

Em Poços de Caldas, férias familiares, de novo o fantasma do “Waltinho Maconheiro” viria a me atormentar. Hospedado no Hotel Joia, conversando com um dos garçons, comentando sobre a passagem de Casagrande pela Caldense, eis que ouço:

– Casagrande barbarizou por aqui. Frequentava um barzinho no centro, ficava com uns roqueiros fumando maconha…

 Quando trabalhei em Alphaville encontrava-me, ou melhor, via Casagrande quase todos os dias na Padaria La Ville. Nunca me aproximei, até que numa noite, o Corinthians iria jogar, passei pela mesa e perguntei “E ai Casão, o que vai dar hoje”? Ele sorriu e respondeu que “Vamos ganhar, vamos ganhar…”

Um amigo mais afoito veio na sequência e começou a cantar “Volta Casão, seu lugar é no Timão” e quase chorando, ou melhor, praticamente chorando disse a ele que aquele tinha sido um dos dias mais emocionantes da vida dele no Pacaembu. Casão sorriu novamente e respondeu “Porra, o meu também…foi demais”.

Ai todo mundo chorou… 

Mas foi na mesma Alphaville, mais precisamente no Centro Comercial, que senti que as coisas estavam estranhas.

Mônica havia montado uma espécie de clínica, assessoria esportiva ou coisa do tipo, dentro do Centro Comercial. Tínhamos um escritório na mesma Calçada, usávamos como estoque de peças, encontrei Mônica conversando com mais algumas mulheres.

Passei por elas e todo empolgado, perguntei a ela: “Tudo bem Mônica, como vai o Casão”?

Ela fechou a cara, respondeu fria e secamente “Bem..” e deu as costas. 

Achei que eu havia sido um tanto quanto intrometido, mas dias depois, um amigo que conhecia uma das funcionárias do local, contou-me que Mônica e Casagrande já praticamente nem viviam mais juntos.

Mais alguns anos se passaram, Casagrande nos comentários das partidas na Rede Globo, as poucos foi melhorando e muito, acredito até que passou a melhorar quando percebeu que não precisava ser corporativista pelo fato de ter sido ex-atleta e que também não precisava fazer média com o Corinthians, por ter nascido lá e nem fazer o estilo “imparcial”, para não ser acusado de parcial…

Veio o acidente, seus problemas com as drogas mais do que escancarados para o mundo, a internação.

Recordo-me de uma homenagem feita ao Casão por um grupo de torcedores. Na festa, vi Casão segurando um copo de caipirinha. Fiquei em dúvida e até hoje carrego esta dúvida, se faz bem a alguém como ele, em tratamento, ter contato com bebida alcoólica.

A propósito, após este evento, um amigo são-paulino  que se tornou fã do Casão quando este passou por lá, não nos falávamos há décadas, disse que viu as fotos que publiquei da homenagem e emendou dizendo que assim como o Casão, havia se tornado um “adicto”.

Adicto? Nunca tinha ouvido falar neste termo, enquanto conversamos via messenger, pesquisei no google…

Não só a palavra me surpreendeu, como também descobrir que este amigo, havia se tornado dependente das drogas e do álcool…

Num impulso, resolvi comprar este livro. Na livraria onde o adquiri, estava ao lado do livro onde Gianecchini também conta sua história de vida.

Assim que finalizei a leitura do livro “A Bola não entra por acaso”, iniciei a leitura do livro do Casagrande.

Que o finalizei em praticamente 8 horas. E se não fossem as interrupções, teria terminado em menos tempo.

A cada linha, é possível ir se envolvendo com a história. Como se fosse um personagem invisível dentro da própria história, assistindo a todos os acontecimentos silenciosamente.

Casagrande foi corajoso. Prestou um enorme serviço a quem convive com o mesmo problema. Por outro lado, Casagrande desfruta de condições absurdamente favoráveis em relação a milhares e milhares de outros adictos que convivem com a mesma situação.

Mas de qualquer forma, enfrentar os demônios, frente a frente, exorcizando-os, separando o homem do celebridade, entendendo que para se curar teria que ser mais Walter e menos Casagrande, já valeu.

Recomendo a leitura.

Você não vai se arrepender.

 

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9 Responses to Waltinho: 30 milhões de histórias. E mais uma

  1. Alexandre Figaro Moreira disse:

    Casão é de família corinthiana e sempre foi corinthiano. Ele explicou na ESPN que este lance com o são paulo veio depois que foi “expulso” do Timão e foi bem recebido pelos bambis,
    Fez bons amigos lá, amigos que tem até hj. Tem carinho pelo clube pela forma como foi recebido, mas É, E SEMPRE FOI CORINTHIANO.
    Essa pergunta foi feita a ele pelo TRAJANO no BOLA DA VEZ de ontem (terça-feira – 23/04).

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  2. Alexandre Figaro Moreira disse:

    Ontem, no Bola da Vez da ESPN, o convidado foi justamente o Casão. Recomendo que procurem as reprises, no youtube, ou em qualquer outro lugar e assistam na íntegra. O porgrama foi FANTÁSTICO !! e no final, na última pergunta ele explica este lance de que são paulino. O Casão já era meu ídolo, agora o Walter Casagrande Junior tb tem (e muito) minha admiração.

    Abraços

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  3. Ernesto de Minas disse:

    Tenho uma famíia enorme. Meu pai veio de Napoli e se apaixonou pelo Corinthians. Seus familiares, todos italianos, se tornaram todos corinthianos. A família de minha mae, também de avós italianos é bem dividida; os mais velhos …………parmeristas e os mais novos corinthianos. No início dos anos 80, a influência de Casagrande foi tamanha na molecada, que primos meus e filhos de primos se tornaram corinthianos por causa dele. Eram crianças de 9 a 15 anos que queriam deixar o cabelo como o dele, andar de bolsa de couro a tira-colo e até passar tinta branca na chuteira. Casagrande fez pelo Corinthians muito mais que gols e títulos.

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  4. Paulo disse:

    Outro dia, estava na Saraiva e vi o livro. Normalmente não me interessaria pela história da vida pessoal de um boleiro ou ex-boleiro, mas, olhando, pensei: vou pelo menos dar uma sapeada no prefácio. Não consegui largar o livro. Fiquei pela meia hora que meus filhos me permitiram grudado na leitura, até o capítulo dos demônios e do tratamento psiquiátrico ou psicoterápico ( essa parte não conclui e ficou meio vaga pra mim ). Outro dia volto lá e termino a leitura, hehehe. Uma história impressionante, sem dúvida, embora não tenha me aprofundado mais no drama que deve estar contado no restante do livro – mas já deu pra ter uma idéia da dimensão da coisa. Quanto ao suposto “bambinismo” de infância do Casão, acho até que pode ser verdadeiro, mas, de outro lado, sua história pessoal se confunde tanto com a de certo momento da história do Corinthians que, suponho, até ele próprio deve ter pedido pra rever aquela lista dos times de preferência de jornalistas que andou circulando por aí, reenquadrando-o como corinthiano. Como alguém lembrou abaixo, parece que ele superou aquela fase de precisar “matar os pais” para se auto-afirmar e romper com o passado, e, aí, parou de querer se desvincular do SCCP, à custa de criticar o Clube que o fez ser um cara famoso. A partir daí, cresceu como profissional.

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  5. Fernando D. disse:

    O São Paulino Waltinho da Penha? Não, grato!
    Preferi ler “Memórias do Velho Vamp”, cuja leitura é obrigatória pra quem gosta de saber dos “causos” dos jogadores. Inclusive tem um capítulo dedicado ao Ronaldo.

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  6. Mario Ricardino Csapo disse:

    Também tenho uma pequena história com o “Casa”.
    Começo da década de 1980, eu com 12, 13 ou 14 anos (não me lembro exatamente a data), estudava em uma escola pela qual fui incumbido com mais dois amigos, de um trabalho de entrevista.
    Como bons Corinthanos, rumamos ao Parque São Jorge, certos de que lá, conseguiríamos a palavra de alguém famoso.
    Quando avistamos o “Casão” saindo do treino, nos aproximamos e, envergonhados mas ansiosos e maravilhados, explicamos a ele o motivo de estarmos lá com um gravador e um microfone nas mãos.
    Saímos de lá felizes com nossa entrevista gravada.
    Mas sobretudo, impressionados com todo o interesse, carinho e atenção dados pelo nosso ídolo da época.
    Ele respondeu a todas as perguntas que fizemos, nos deu autógrafo e quando íamos embora pegruntou:
    “Vocês não querem uma foto comigo”?
    Daquele dia em diante, ele passou a ser mais ídolo ainda para aqueles três “corinthianos doentes”.
    Estou lendo o livro e também recomendo a compra.
    E pelo que tenho ouvido falar, Casagrande traz com ele até hoje aquilo que nos impressionou.
    Depoimentos dão conta de que ele seja um grande ser humano, de coração enorme.
    Coisa que eu e meus amigos tinhamos notado há muuuuito tempo.

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  7. Mauro Oliveira Ben Yosef disse:

    Eu sempre gostei do Casão, estava no Pacaembu quando a fiel em peso pediu (exigiu) sua volta. Foi emocionante.

    Mais emocionante é ver uma pessoa lutar contra as drogas do jeito que ele está lutando, concordo com você que ele é uma minoria que tem condição de fazer isso, mas se não fosse algo tão lucrativo para alguns, com certeza teríamos um tratamento decente para dependente químicos ao alcance de todos neste país, e que tratem os dependentes químicos com eles realmente são, DOENTES que precisam de ajuda, e os traficantes como eles realmente são; bandidos parasitas que vivem da desgraça alheia.

    Na parte esportiva dizem que essa história de ser bâmbi surgiu quando começou a ser comentarista, para desvincular sua imagem do Corinthians e mostrar ser imparcial.

    Para falar a verdade acho que nem importa, a ligação com o Timão é eterna; Casagrande do Corinthians !!!

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  8. Alvaro disse:

    Silvio, olha que legal isso, achei no site da Fifa

    http://pt.fifa.com/mm/document/footballdevelopment/technicalsupport/02/01/25/90/fcwcreportwebv2.pdf

    Dois jogos que estava me marcaram muito, sua volta a são paulo em 1993 jogando pelos mulambos, ganhamos de 1 x 0 gol do Rivaldo, o Pacaembu lotado e cantando o nome do Casão e na verdade o gol foi dele pois a bola bateu em sua barriga antes de entrar e contra o Grêmio onde ele fez seu 100º gol pelo timão

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  9. Marco disse:

    comprei, estive no lancamento do livro, bem bacana, e emocionante.

    uma questao nao ficou bem resolvida.

    ela era sao paulino na infancia ou nao?

    abrac, silvinho.

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